terça-feira

Uma justificativa e várias interrogações

            “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça...” o comando de Glauber Rocha virou o lema de jovens da década de 60, que saíram por aí retratando o Brasil e o mundo, tentando entender a realidade em que viviam. O comando cabe em qualquer época, e o cinema nasce com essa característica de tentar apresentar culturas, aproximar tradições, mostrar lugares e cotidianos de povos, por vezes, distantes ou próximos entre si, em quilômetros e costumes. Mediante ficções e documentários, o dia a dia sempre foi devassado por lentes ávidas em capturar o estranhamento de um mundo de final do século XIX e início do século XX que ia se configurando num cenário político e social de fundamental importância mundial, tendo como pano de fundo a revolução tecnológica. Entre capitalismos e socialismos, e outros ismos relacionados ou não com eles – neoliberalismo, catolicismo, protestantismo, espiritismo, judaísmo, misticismo, fanatismo – paisagens, lutas de classe, golpes de Estado, tradições, revoluções tecnológicas, se insinuam aos cineastas, os quais, mexendo nas estruturas, fazem com que, através de imagens intencionalmente projetadas, pessoas pensem e se entreguem ao prazer de ver o que veem.
Não se pode dizer que isso foi tarefa fácil nos primeiros 60 anos, pois os equipamentos eram caros, difíceis de transportar, e nem sempre os cineastas contavam com empresas e pessoas interessadas em financiar “ideias” caras, no sentido plural dessa expressão. Mas como a “ideia na cabeça” falava alto, a câmera chegava à mão dos que queriam fazer cinema, quer por empréstimo de amigos e órgãos públicos, quer por compra por aqueles que dispunham de recursos próprios ou os que já tinham filme de sucesso. O processo de edição ocorria da mesma forma. Assim o cinema foi se fortalecendo, virando arte, virando educação... Não tardou aparecer os escritos sobre a sua função educativa, e como não poderia deixar de ser, também sobre a sua função manipuladora de atitudes e comportamentos. As produções bibliográficas buscavam apresentar compreensões acerca do que era o cinema, quais os seus efeitos. Assim, russos, italianos, brasileiros, franceses, ingleses, canadenses, estadunidenses, alemães, escreveram suas teorias, alguns criaram seus institutos de cinema educativo, a exemplo do Instituto L’Unione Cinematográfica Educativa - LUCE , na Itália, e do Instituto Nacional de Cinema Educativo – INCE, no Brasil. Alguns, como o cineasta russo Dziga Vertov, usaram o cinema para apresentar fragmentos da vida real, suas histórias e contradições, passando pelo cotidiano dos trabalhadores e formando um mosaico de imagens distribuídas de forma poética e profunda nos fazendo pensar na dinâmica da vida, e outros usaram para manipular, como os filmes do LUCE que serviam ao governo de Mussolini para inculcar valores do nacionalismo fascista, ao gosto e desejo do poder constituído. E desde sempre o cinema foi colocado no meio de um campo de batalha: diversão, veículo para cooptar pessoas, instrumento de educação e, às vezes, tudo isso ao mesmo tempo. Seus papéis são diversos e sua competência reconhecida.
 É nessa configuração, que se parte para entender o uso do cinema pelo viés da educação. Como transformá-lo em instrumento de aprendizagem e de pesquisa? Como construir um olhar atento às manipulações imagéticas? O que nos inquieta, inicialmente, é o fato de que, se o cinema educativo foi discutido, se institutos foram cridos, se a importância do audiovisual na educação foi defendida por diversos autores, por que o cinema até então não entrou, de fato, na escola? Não se impôs às metodologias dos processos de ensino aprendizagem?  Por que o filme ainda é visto com olhar enviesado pelos educadores? Como se processou a construção histórica do nosso cinema educativo? Por certo, não teremos respostas imediatas, objetivas e razoáveis para essas inquietações, as quais ficarão ecoando, em nossa mente, por um tempo ainda... Mas, e os dias de hoje? Qual a sua configuração e o que faz com que seja importante pesquisar cinema na educação?